Correspondência de Marx e Engels

Carta de Karl Marx a J. B. von Schweitzer<br>[Sobre Proudhon] (1)

Selecção: Francisco Melo Tradução: José Barata-Moura
Londres, 24 de Janeiro de 1865
Caro Senhor!

Recebi ontem uma carta em que V. me pede um ajuizamento pormenorizado acerca de Proudhon. A falta de tempo não me permite satisfazer o seu desejo. Além disso, não tenho nenhum dos escritos dele aqui à mão. Para, contudo, lhe mostrar a minha boa vontade, traço rapidamente um curto esboço. Poderá, então, completar, adicionar, omitir, em suma, fazer dele o que melhor lhe parecer (4).
Já não me lembro dos primeiros ensaios de. Proudhon. O seu trabalho escolar sobre a «Langue universelle» (5) mostra com que displicência ele se atirava a problemas para a solução dos quais lhe faltavam mesmo os primeiros conhecimentos preliminares.
A sua primeira obra Qu'est-ce que la propriété? (6) é incondicionalmente a sua melhor obra. Faz época, se não por um conteúdo novo, pelo menos, pela maneira nova e atrevida de dizer o velho. Nas obras – que ele conhecia – dos socialistas e comunistas franceses, a «propriété» (7), naturalmente, tinha sido não só criticada de diversos modos, como também utopicamente «suprimida» [aufgehoben]. Naquele escrito, Proudhon está para Saint-Simon (8) e Fourier (9) aproximadamente como Feuerbach (10) está para Hegel (11). Comparado com Hegel, Feuerbach é bem pobre. Contudo, depois de Hegel, ele fez época porque pôs o acento em certos pontos, desagradáveis para a consciência cristã e importantes para o progresso da crítica, que Hegel tinha deixado num místico clair-obscur (12).
Naquele escrito de Proudhon domina ainda, se assim me posso expressar, uma forte musculatura do estilo. E eu considero o estilo dele como o seu principal mérito. Vê-se que, mesmo ali onde apenas algo de velho é reproduzido, Proudhon descobre por si; que aquilo que ele diz era novo para ele próprio e valia como novo. Desafio provocador que atinge o «sacrossanto» económico, paradoxos plenos de espírito com os quais o senso comum burguês é ridicularizado, juízo dilacerante, amarga ironia, um profundo e verdadeiro sentimento de revolta transparecendo aqui e além acerca da infâmia do existente, sinceridade revolucionária – por tudo isto Qu'est-ce que la propriété? electrizou e produziu um grande choque desde a sua primeira publicação. Numa história rigorosamente científica da Economia Política este escrito mal seria digno de menção. Mas semelhantes escritos de sensação tanto desempenham o seu papel nas ciências como na literatura romanesca. Tome-se, por exemplo, o escrito de Malthus sobre «Population» (13). Na sua primeira edição não é nada mais do que um «sensational pamphlet» (14) e, ainda por cima, um plagiat (15) do princípio ao fim. E, todavia, que choque não produziu este pasquim sobre o género humano!
Se tivesse o escrito de Proudhon diante de mim, seria fácil documentar com alguns exemplos o seu primeiro maneirismo. Nos parágrafos que ele próprio considerava como os mais importantes, imita o tratamento por Kant (16) das antinomias – era este o único filósofo alemão que nessa altura ele conhecia, por traduções – e deixa a forte impressão de que, para ele, tal como para Kant, a solução das antinomias vale como algo que cai «para além» do entendimento humano, isto é, sobre a qual o seu próprio entendimento permanece nas trevas.
Apesar de todas estas aparentes arremetidas titânicas [contra o céu, Himmelsstürmerei] encontra-se já, porém, em Qu'est-ce que la propriété? a contradição segundo a qual Proudhon, por um lado, critica a sociedade do ponto de vista e com os olhos de um camponês das parcelas francês (mais tarde de um petit bourgeois (17)) e, por outro lado, aplica o critério que lhe foi transmitido pelos socialistas.
A insuficiência do escrito estava já insinuada no seu título. A questão estava posta de um modo tão falso que não podia ser correctamente respondida. As «relações de propriedade» antigas tinham decaído nas feudais, as feudais nas «burguesas». A própria história tinha, deste modo, exercido a sua crítica sobre as relações de propriedade passadas. Aquilo de que propriamente se tratava para Proudhon era da propriedade moderna-burguesa subsistente. À questão sobre o que esta fosse, só se podia responder por uma análise crítica da «Economia Política» que compreendesse o todo [das Ganze] daquelas relações de propriedade, não na sua expressão jurídica como relações de vontade, mas na sua figura real, isto é, enquanto relações de produção. Porém, uma vez que Proudhon entrelaçava a totalidade [die Gesamtheit] destas relações económicas na representação jurídica universal «a propriedade», «la propriété», também não podia ir além da resposta que Brissot com as mesmas palavras, num escrito semelhante, já antes de 1789 tinha dado (18): «La propriété c'est le vol.» (19)
No melhor dos casos, isto só conduz a que as representações burgueso-jurídicas de «roubo» também se aplicam ao próprio ganho «honesto» do burguês. Por outro lado, como o «roubo», enquanto violação violenta da propriedade, pressupõe a propriedade, Proudhon embrulha-se em toda a espécie de congeminações obscuras para ele próprio, acerca da verdadeira propriedade burguesa.
Durante a minha estada em Paris, em 1844, travei relações pessoais com Proudhon. Menciono isso aqui porque, até certo ponto, sou culpado da sua «sophistication» (20), como os ingleses chamam à falsificação de um artigo de comércio. Durante longos debates, frequentemente pela noite dentro, infectei-o, para grande mal dele, com hegelianismo, que ele, contudo, pelo seu desconhecimento da língua alemã não podia estudar convenientemente. Aquilo que eu comecei, prosseguiu-o depois da minha expulsão de Paris o senhor Karl Grün (21). Este, como professor da filosofia alemã, tinha ainda sobre mim a vantagem de ele próprio não entender nada do [assunto].
Pouco antes da publicação da sua segunda obra significativa, Philosophie de la misère, etc. (22), Proudhon anunciou-ma numa carta muito pormenorizada de que, entre outras coisas, se escapam estas palavras: «J’attends votre férule critique.» (23) Entretanto, esta em breve caiu sobre ele (no meu escrito Misère de la philosophie, etc. (24), Paris, 1847), de uma maneira que pôs para sempre fim à nossa amizade.
Do que aqui foi dito vê V. que a Philosophie de la misère ou Système des contradictions économiques de Proudhon continha propriamente pela primeira vez a resposta à pergunta: Qu'est-ce que la propriété? De facto, ele só tinha começado os seus estudos económicos depois da publicação deste escrito; tinha descoberto que a pergunta por ele posta não podia ser respondida com uma invectiva, mas apenas pela análise da «Economia Política» moderna. Procurou, ao mesmo tempo, expor dialecticamente o sistema das categorias económicas. A «contradição» de Hegel devia tomar o lugar das insolúveis «antinomias» de Kant, como meio de desenvolvimento.
Para ajuizamento da sua volumosa obra em dois tomos tenho de o remeter para a minha réplica. Mostrei aí, entre outras coisas, quão pouco ele penetrou no segredo da dialéctica científica; como, por outro lado, ele partilha as ilusões da filosofia especulativa, na medida em que, em vez de conceber as categorias económicas como expressões teóricas de relações de produção históricas, correspondentes a um determinado estádio de desenvolvimento da produção material, as fantasias em ideias preexistentes, eternas, e como, por este desvio, ele chega de novo ao ponto de vista da economia burguesa (19).
(Continua num próximo número.)

Notas
(1) Foi por ocasião da morte de Proudhon e a pedido de Schweitzer, chefe de redacção do Social-Democrat (2), que Marx esvreceu o artigo «Sobre Proudhon». Oferecendo como que um balanço da crítica das cocepções filosóficas, económicas e políticas de Proudhon feita em Miséria da Filosofia e noutros textos, Marx mostrou toda a inconsistência da ideoligia proudhoniana. Analisando os projectos práticos de Proudhon visando «resolver a questão social», submete a uma crítica devastadora as suas ideias de «crédito gratuito» e de «banco do povo». Resumindo a sua apreciação de Proudhon, Marx caracteriza-o como um ideólogo típico da pequena burguesia.
Johann Baptist von Schweitzer (1833-1875): um dos representantes do lassalianismo na Alemanha, presidente da Associação Geral de Operários Alemães (1867-1871); criou obstáculos à filiação de operários alemães na I Internacional; lutou contra o Partido Operário Social-Democrata; em 1872 foi expulso da Associação por se terem descoberto ligações com as autoridades prussianas.
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865): publicista, economista e sociólogo francês, ideólogo da pequena burguesia, um dos fundadores do anarquismo.
(2) Social-Demokrat (Social-Democrata), órgão da Associação Geral de Operários Alemães, fundada por Lassalle (3). Publicou-se com este título em Berlim de 15 de Dezembro de 1864 a 1871; de 1864 a 1867, Schweitzer foi o seu director.
(3) Ferdinand Lassalle (1825-1864): publicista alemão, advogado: em 1848-1849 participou no movimento democrático da província do Reno; em começos dos anos 60 aderiu ao movimento operário; um dos fundadores da Associação Geral de Operários Alemães (1863); apoiou a política de unificação da Alemanha «a partir de cima» sob a hegemonia da Prússia; deu início à tendência oportunista no movimento operário alemão.
(4) A redacção do Social-Demokrat, ao publicar a carta, colocou aqui a seguinte nota de rodapé: «Considerámos melhor publicar o escrito sem alterações
(5) Trata-se do escrito de Proudhon Essai de grammaire générale (Ensaio de Gramática Geral).
(6) Trata-se da obra de Proudhon: Qu'est-ce que la propriété? Ou recherches sur le príncipe du droit et du gouvernement [O Que É a Propriedade? Ou Investigações sobre o Princípio do Direito e do Governo], Paris, 1840.
 (7) Em francês no texto: propriedade.
(8) Henri Saint-Simon (1760-1825): socialista utópico francês.
(9) Charles Fourier (1772-1837): socialista utópico francês.
(10) Ludwig Feuerbach (1804-1872): filósofo materialista alemão do período pré-marxista.
(11) Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831): representante da filosofia clássica alemã, idealista objectivo.
(12) Em francês no texto: claro-escuro.
(13) Trata-se da obra de Thomas Robert Malthus: An Essay on the Principie of Population, as it Affects the Future Improvement of Society, with Remarks on the Speculations of Mr. Godwin, M. Condorcet, and Other Writers [Um Ensaio sobre 0 Princípio da População, Uma Vez Que Ela Afecta o Melhoramento Futuro da Sociedade, com Observações sobre as Especulações do Sr. Godwin, do Sr. Condorcet e de Outros Escritores], London, 1798.
Thomas Robert Malthus (1766-1834): sacerdote e economista inglês; defensor de uma teoria sobre a população.
(14) Em inglês no texto: panfleto de sensação.
(15) Em francês no texto: plágio.
(16) Immanuel Kant (1724-1804): fundador da filosofia clássica alemã, idealista.
(17) Em francês no texto: pequeno burguês.
(18) Trata-se da obra de J.-P. Brissot de Warville intitulada Recherches philosophiques. Sur le droit de propriété et sur le vol, considérés dans la nature et dans la société (Investigações Filosóficas. Sobre o Direito de Propriedade e sobre o Roubo, Considerados na Natureza e na Sociedade).
Jean-Pierre Brissot (1754-1793): personalidade da revolução burguesa francesa de fins do século XVIII em França, inicialmente jacobino, depois chefe e teórico dos girondinos.
(19) Em francês no texto: «A propriedade é o roubo.»
(20) Em inglês no texto: adulteração, falsificação.
(21) Karl Grün (1817-1887): publicista alemão; em meados dos anos 40 um dos principais representantes do chamado «socialismo verdadeiro»; partidário de Proudhon.
(22) Trata-se da obra de Proudhon: Système des contradictions économiques, ou philosophie de la misère [Sistema das Contradições Económicas ou Filosofia da Miséria], t. 1-2, Paris, 1846.
(23) Em francês no texto: «Espero a sua férula crítica.» Marx refere-se à carta que Proudhon lhe endereçou de Lyon em 17 de Maio de 1846.
(24) O título completo da obra de Marx é: Misère de la philosophie. Réponse à la philosophie de la misère de M. Proudhon [Miséria da Filosofia. Resposta à Filosofia da Miséria do Sr. Proudhon]. Ver Karl Marx, Miséria da Filosofia, Edições «Avante!», Lisboa, 1991.
(25) «Quando os economistas dizem que as relações presentes – as relações da produção burguesa – são naturais, dão assim a entender que são relações em que o engendramento da riqueza e o desenvolvimento das forças produtivas se consumam em conformidade com as leis da Natureza. Deste modo, estas relações são elas próprias leis da Natureza, independentes da influência do tempo. São leis eternas que sempre têm de reger a sociedade. Assim, houve uma história, mas já não há mais.» (P. 113 do meu escrito.) (26)
(26) Cf. edição portuguesa citada na nota (25), p. 108. Tenha-se em conta que a edição portuguesa foi feita a partir do texto original de Marx em francês, ao passo que Marx nesta carta a Schweitzer dá desse texto uma versão em alemão.


Mais artigos de: Argumentos

A tragédia em tom menor

Na passada segunda-feira, o «Prós e Contras» trazia um título forte: «A tragédia humana do desemprego». Os mais prudentes, os que acham que a televisão há-de servir mais para fazer esquecer que para fazer lembrar, poderiam até temer que o programa fosse...